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Sun Tzu não está morto - Arte da Guerra

  • Foto do escritor: Lucas Costa
    Lucas Costa
  • 7 de jan.
  • 4 min de leitura

Poucos livros foram tão mal interpretados quanto A Arte da Guerra. Tratado como manual militar, livro de autoajuda corporativa ou coleção de frases de efeito, ele costuma ser lido fora do seu verdadeiro lugar. Sun Tzu não escreveu sobre batalhas. Ele escreveu sobre poder, antecipação e organização do conflito. E, por isso mesmo, segue vivo.


Quando Sun Tzu afirma que a vitória é decidida antes da batalha, ele está descrevendo um princípio estrutural: o confronto visível é apenas a última etapa de um processo invisível. Quem chega à batalha já está colhendo as consequências de decisões tomadas muito antes (políticas, econômicas, estratégicas etc). Por conta disso, hoje abordarem o livro e suas regras em diferentes perspectivas, exatamente para mostrar o quão atual é A Arte da Guerra, apesar de ter sido escrito no século V a.C. Boa leitura!


Sun Tzu

Geopolítica: vencer sem guerra é a regra, não a exceção

A leitura geopolítica de Sun Tzu é talvez a mais direta. Estados não competem apenas com tanques e soldados, mas com economia, tecnologia, energia, diplomacia e informação. O conflito armado é caro, instável e imprevisível. Por isso, o objetivo racional sempre foi evitar a guerra aberta — e vencer mesmo assim.


Guerra Fria

Durante a Guerra Fria, por exemplo, Estados Unidos e União Soviética disputaram influência global por décadas sem um confronto direto entre si. O tabuleiro foi ocupado por guerras por procuração, alianças estratégicas, corrida tecnológica, domínio financeiro e propaganda. A vitória não seria definida em um campo de batalha, mas na capacidade de sustentar o sistema econômico, atrair aliados e moldar narrativas. Sun Tzu descreve exatamente isso ao afirmar que o auge da estratégia é subjugar o inimigo sem combatê-lo.


O mesmo se aplica às disputas contemporâneas por cadeias produtivas, semicondutores, energia e rotas logísticas. Quando um país controla gargalos estratégicos — seja tecnologia, financiamento ou abastecimento — ele antecipa o resultado do conflito. Sanções econômicas, acordos multilaterais e dependência energética são armas silenciosas, mas extremamente eficazes. O campo de batalha não desapareceu; ele apenas mudou de forma.


*Abaixo algumas publicidades do período discutido.

Propaganda Soviética
Propagandas Americana do período da Guerra Fria.

Propaganda Americana
Propagandas Soviéticas do mesmo período.

Economia: guerras longas destroem até os vencedores

Sun Tzu alerta repetidamente sobre o custo da guerra prolongada. Na economia, esse princípio aparece com clareza em disputas comerciais, políticas industriais mal planejadas e ciclos de instabilidade macroeconômica.


Guerras tarifárias, por exemplo, raramente produzem vencedores claros. Mesmo quando um país impõe custos ao outro, o desgaste interno — inflação, perda de competitividade, insegurança jurídica — corrói os ganhos aparentes. É o equivalente econômico de uma campanha militar longa demais: o desgaste supera o benefício.


Tarifaço Trump
Anúncio do "tarifaço" de Trump (05/04/2025)

Da mesma forma, políticas econômicas reativas, feitas para responder a crises sem planejamento estrutural, colocam o país sempre em posição defensiva. Sun Tzu chamaria isso de lutar no terreno escolhido pelo inimigo. Em economia, como na guerra, quem define o ambiente define o resultado.


Geopolítica: o terreno não é só geográfico

Um dos conceitos mais sofisticados de Sun Tzu é o de terreno. Ele não se limita à geografia física, mas inclui condições externas que favorecem ou dificultam a ação. No mundo moderno, o terreno é institucional, tecnológico e financeiro.


Países que dominam padrões tecnológicos, sistemas de pagamento, moedas fortes ou plataformas globais criam terrenos favoráveis para si e hostis para os outros. A disputa por influência monetária, por exemplo, é uma forma clássica de guerra sem armas. Quando uma moeda se torna dominante, ela transforma o sistema internacional em um campo inclinado a favor de quem a emite.


Maduro capturado

Sun Tzu não falava de moedas ou tecnologia digital, mas entendia algo fundamental: quem controla o ambiente, controla o desfecho. A batalha, quando ocorre, apenas confirma isso.


Empresas: concorrência é posicionamento

No mundo corporativo, A Arte da Guerra costuma ser lida de forma caricata, como incentivo à agressividade. Essa leitura ignora o ponto central do livro. Sun Tzu não elogia o ataque constante; ele valoriza a posição superior.


Empresas que competem apenas por preço, por exemplo, entram em guerras longas e destrutivas. Margens caem, caixa se esgota e o mercado inteiro empobrece. Isso é exatamente o tipo de conflito que Sun Tzu aconselharia evitar. Empresas estrategicamente bem posicionadas fazem o oposto: reduzem a necessidade de confronto direto.


Elas escolhem mercados onde possuem vantagem, constroem barreiras de entrada, dominam canais de distribuição ou criam dependência tecnológica. Quando a concorrência percebe, o jogo já está decidido. A “batalha” (campanhas agressivas, cortes de preço, disputas públicas) é apenas a fase final de um resultado previsível.


Conhecer o concorrente, conhecer a si mesmo e escolher as batalhas certas é o coração da estratégia corporativa. Essa é a razão pela qual algumas empresas crescem em silêncio enquanto outras fazem barulho e desaparecem.


Política e empresas: o erro moderno

Um dos maiores equívocos contemporâneos é confundir ação com estratégia. Governos anunciam medidas constantemente. Empresas lançam produtos, campanhas e reestruturações em ritmo frenético. Mas Sun Tzu é claro: agir sem cálculo é desperdiçar energia.


Estratégia não é fazer mais. É fazer menos, no lugar certo, no momento certo. Quando o conflito se torna visível demais, geralmente é sinal de que a preparação falhou. A verdadeira vitória é silenciosa, quase entediante (porque já era esperada).


Por que Sun Tzu continua vivo

Sun Tzu não está morto porque o mundo não deixou de ser competitivo. Estados ainda disputam poder. Empresas ainda disputam mercados. Grupos ainda disputam influência. O que mudou foi a forma. O conflito moderno é menos explícito, mais sofisticado e mais antecipado.


A Arte da Guerra permanece atual porque não ensina a lutar melhor, mas a organizar o mundo para não precisar lutar. Em política, economia, geopolítica ou empresas, a lógica é a mesma:

Quando a batalha começa, o resultado já foi decidido.

E quem entende isso joga outro jogo — enquanto os outros ainda acreditam que a guerra começa no confronto.

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